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Publicação do Livro:
VIOLÊNCIAS E RESISTÊNCIAS: ESTUDOS DE GÊNERO, RAÇA E SEXUALIDADE

A presente publicação é resultado dos diálogos produzidos entre pesquisadoras dos temas das violências, a partir de abordagens que considerem os recortes de gênero, raça e sexualidades. A proposta parte do Núcleo de Estudos em Gênero e Desenvolvimento (Engendre), da Universidade Federal do Piauí (UFPI), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da mesma universidade, e se propõe a agregar reflexões produzidas no contexto piauiense, bem como em outros estados da federação. Ao reunir os artigos no livro "Violências e resistências: estudos de gênero, raça e sexualidade", conferimos visibilidade à produção acadêmica piauiense sobre as violências, ao tempo em que estabelecemos trocas e parcerias importantes com as demais instituições envolvidas, considerando os núcleos e grupos de pesquisa aos quais estão vinculadas as autoras desta publicação. Ao produzirmos este diálogo acadêmico, fortalecemos também a produção científica piauiense e buscamos oferecer ao público diversos recortes sobre as temáticas abordadas, contribuindo para reflexões, enfrentamentos e incentivando novas investigações no campo das ciências humanas/sociais. Ao todo, o livro reúne 11 artigos, tratando de questões jurídicas, políticas públicas, afirmação de direitos, justiça social, movimentos sociais, corporeidades, apresentando estudos realizados em diferentes contextos do país, tendo o eixo da violência como tema transversal. Esperamos que possa contribuir para novas produções e que as reflexões aqui reunidas possam também contribuir para o enfrentamento das várias modalidades de violências. Desejamos uma boa leitura a todo/as!

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Cuidado, sobrecarga e profissão na vida das mulheres em tempos de Covid-19

Texto publicado no site justificando.com


Mulheres já são maioria no ensino superior brasileiro, seja na graduação seja na pós-graduação, mas ainda encontram grandes desafios para acessar profissões reconhecidas socialmente, como a de docentes universitárias, e para se mostrarem competitivas e produtivas, ainda mais em tempos de distanciamento social.


A visibilidade da experiência é uma questão central quando analisamos o local das mulheres na história da ciência. Com suas contribuições desde sempre apagadas, tornou-se comum atribuir somente aos homens a totalidade das descobertas, observações e pesquisas cruciais para o acúmulo de conhecimento entre as gerações, relegando a um segundo plano a importância de figuras como Marie Curie, Rosalind Franklin e Hendy Lamarr, entre outras famosas e anônimas, na geração de avanços científicos e tecnológicos. Graças aos feminismos, entretanto, assistimos atualmente a uma redescoberta dessa história que foi esquecida, ao mesmo tempo em que observamos a permanência das desigualdades de gênero nos mundos científico e acadêmico; disparidades essas responsáveis por dificultar não só o reconhecimento de trabalhos importantes feitos por mulheres, como também o acesso das mesmas a cargos de chefias de departamentos, de reitorias e de laboratórios de investigação, principalmente quando o foco são as ciências naturais e exatas, nas quais elas estão ainda mais subrepresentadas em relação a eles. Esse quadro de disparidades não é muito diferente quando realizamos um olhar global sobre as demais profissões.

Com o passar das décadas, algumas lutas tem permitido que uma grande quantidade de mulheres ingresse cada vez mais nos bancos universitários de muitos países e as universidades, como sabemos, continuam sendo o principal lócus de formação das profissionais que são linha de frente na produção de iniciativas com impacto direto no bem-estar social. Só para ter uma noção, no Brasil, elas são maioria no ensino superior, tendo em vista que o público feminino ocupa aproximadamente 57% das vagas de matrículas de graduação, conforme dados do Censo da Educação Superior de 2018 [1]. Além disso, são 61% das concluintes dessas graduações e aproximadamente 71% das concluintes nas licenciaturas. Essas taxas podem estar ligadas ao fato de que as mulheres concluem em maior quantidade o ensino médio em relação aos homens em nosso país, acumulando mais anos de estudo, e a distorção idade-série é menor entre elas do que entre eles, abrindo maiores possibilidades de acesso às faculdades, universidades e institutos federais. Nesses últimos, são as mulheres que também perfazem a maioria nos cursos profissionalizantes.

Já o relatório Education at Glance 2019 elaborado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade internacional, constata que as mulheres brasileiras tem uma probabilidade 34% maior do que os homens de concluir o ensino superior [2]. Constatamos essa tendência nacionalmente ao vermos que 25% da população feminina conclui o ensino superior contra 18% da população masculina, com base nos dados desse mesmo relatório global – a grande maioria dos dois públicos (75%) em instituições privadas. Esse panorama se mostra bastante positivo se pensarmos apenas em termos de inclusão percentual. Entretanto, quando olhamos de maneira mais profunda para a maneira como as carreiras se desenvolvem, começam a aparecer diversas desvantagens para as mulheres. A empregabilidade de homens com ensino superior chega a 89%, enquanto das mulheres nessa mesma faixa educacional não passa dos 63%, sendo que elas possuem mais dificuldades para encontrar emprego quando formadas do que quando apenas com ensino profissionalizante [3]. Já os docentes do ensino superior são em sua maioria homens (55%), enquanto no ensino básico, mais precarizado e mal-remunerado, dominam as mulheres (80%).

Avançando na hierarquia de formação e olhando para as disparidades dentro da academia, ressaltamos que para ascender na carreira universitária no Brasil, se assim for o desejo daquela ou daquele que conclui a primeira etapa da formação no ensino superior, é necessário a conclusão de um mestrado e um doutorado, fase pela qual menos de 2% da população brasileira passa. Nessa escala, as mulheres mestres e doutoras perfazem mais de 50% do total dos que concluem essas modalidades de curso, porém a sua rentabilidade financeira ainda é menor do que a dos homens [4]. Além do mais, elas estão pouco presentes em áreas que remuneram melhor, tendo em vista o imaginário e a consideração social que estas profissões mobilizam, como as engenharias e as ciências exatas e da terra e mais presentes em áreas que remuneram pior como as de letras, artes e humanidades. Outro fator bastante importante é a “distribuição” interna das profissões, um exemplo é a área da saúde. Nesse período de quarentena [5] os dados demonstram que as mulheres compõem em torno de 80% da força de trabalho da saúde, “misteriosamente” a maioria delas encontra-se em profissões relacionadas ao cuidado como enfermeiras, psicólogas, agentes comunitários, técnicas de enfermagem e se observarmos pelas lentes da questão de gênero é possível perceber como os processos de essencialização do que é ser uma mulher e dos papéis sociais a elas atribuídos (entre eles o cuidado como algo “natural” as mulheres) influenciam tanto no campo da escolha das profissões como no seu desenrolar dentro das distintas áreas de atuação. Em relação à medicina, por exemplo, os homens perfazem a maioria, em torno de 53%, e estas diferenças aumentam quando olhamos para especialidades cirúrgicas que demandam mais anos de estudos.

Ao ingressarem em carreiras nos setores público e privado por meio de concursos públicos e demais processos seletivos, por exemplo, muitas são aquelas que tem que conciliar a maternidade e os trabalhos domésticos com as suas atividades laborais. Essa tripla jornada de trabalho esta relacionada aquilo que Silvia Federici e Nancy Fraser têm chamado a atenção, a saber, o cuidado entendido como um atributo feminino encobre o fato de que na verdade este é o trabalho reprodutivo não pago e essencial à manutenção das formas de produção do sistema econômico vigente e a sobrecarga produzida sobre as mulheres por conta das questões do cuidado se refletem nas supostas escolhas pessoais e profissionais que se apresentam a elas. A média de idade na qual mulheres com alto nível de formação tem filhos é de 32 anos, acima da média da população que é de 26 anos; isso ocorre porque muitas são as mulheres que postergam a gravidez para “não ficarem para trás” na competitividade dos mundos profissional e acadêmico, dilema que os homens em sua maioria não enfrentam quando vão seguir uma carreira envolta de atividades que demandam dedicação exclusiva e, portanto, incompatíveis com a carga horária das tarefas necessárias à reprodução [6]. Em muitos casos, a saída, para as mulheres, passa pela terceirização do cuidado com os filhos e com o lar por meio da contratação de babás, diaristas e empregadas domésticas.

Se analisarmos esta suposta saída por uma lente interseccional podemos problematizar o fato de que enquanto sociedade não discutimos e transformamos o modo como a reprodução da vida têm sido socialmente compreendida, ou seja, não como uma atribuição das mulheres, mas como uma responsabilidade socialmente compartilhada entre todos(as). Ao contrário, se mantém a responsabilização das mulheres sobre o cuidado com o lar, as crianças e os idosos e aquelas que possuem condições materiais passam a transferir tais responsabilidades a outras mulheres que em geral, são negras e pobres. Aqui diferentes marcadores sociais se cruzam para tornar ainda mais difícil, diria mesmo improvável, para algumas mulheres a entrada no mundo das profissões socialmente reconhecidas, isso porque socialmente não reconhecemos o cuidado como uma profissão e muito menos o valorizamos socialmente.

Ainda no campo das produções científicas, um dado que têm circulado pelas redes é o fato de que de acordo com diferentes institutos de pesquisa a submissão de artigos científicos assinado por mulheres caiu drasticamente durante a pandemia. De acordo com uma pesquisa da revista DADOS [7], durante o segundo trimestre de 2020 as submissões que giravam em torno de 40% caíram para 28%. Mesmo em um setor melhor remunerado como o da docência universitária, o que o período de isolamento social têm feito é tornar visível de forma visceral as desigualdades de gênero sentidas, vividas e conhecidas por todas as mulheres nos seus diversos modos de vida. A sobrecarga de trabalho e de responsabilidades é um fenômeno que esteve (está) encoberto por diversas formas de essencialização do ser mulher e das relações interpessoais e que no momento atual passa a ter seus nervos e veias expostos pela necessidade da reclusão, que torna visível as diferenças de atribuições no interior das relações interpessoais. Lembremos que como espécie não podemos sobreviver sem o cuidado, mas como sociedade não o valorizamos como uma tarefa coletiva que sustenta a existência, e tal invisibilidade recai sobre o ombro das mulheres, dificultando assim sua ascensão social, seja na academia, no governo ou no setor privado.


Notas:
[1] http://download.inep.gov.br/educacao_superior/censo_superior/documentos/2019/censo_da_educacao_superior_2018-notas_estatisticas.pdf

[2] https://www.oecd-ilibrary.org/education/education-at-a-glance-2019_f8d7880d-en

[3] https://www.bbc.com/portuguese/geral-49639664

[4] https://www.capes.gov.br/36-noticias/8315-mulheres-sao-maioria-na-pos-graduacao-brasileira

[5] http://anesp.org.br/todas-as-noticias/2020/4/16/a-guerra-tem-rosto-de-mulher-trabalhadoras-da-sade-no-enfrentamento-covid-19

[6] https://observatorio3setor.org.br/noticias/como-a-maternidade-afeta-a-carreira-cientifica-de-mulheres-no-brasil/

[7] http://dados.iesp.uerj.br/pandemia-reduz-submissoes-de-mulheres/